Licitação prevê novos equipamentos e monitoramento em tempo real — valor estimado é de R$ 118,5 milhões — Histórico do sistema é de disputas institucionais e a lenta chegada da tecnologia inteligente
O Departamento de Trânsito do DF (Detran-DF) (enfim) abriu a licitação mais abrangente já realizada para modernizar o sistema semafórico das vias urbanas do Distrito Federal. O edital, estimado em 118,5 milhões de reais e submetido previamente ao Tribunal de Contas do DF, prevê manutenção contínua, substituição de equipamentos antigos, implantação de novos cruzamentos e adoção de tecnologia inteligente capaz de monitorar o trânsito em tempo real.
O pregão eletrônico está marcado para 25 de junho e integra um processo que vem sendo discutido há meses com órgãos de controle, após ajustes técnicos solicitados ao longo da elaboração do projeto. A ideia de modernizar os semáforos se arrasta há alguns anos – sem muito sucesso.
O parque semafórico do DF conta hoje com 470 cruzamentos e 1.953 semáforos, instalados em grande parte há mais de duas décadas. A infraestrutura foi parcialmente renovada em 2022, mas ainda opera sem uma central capaz de identificar falhas automaticamente.
Atualmente, panes só chegam ao conhecimento do órgão por câmeras da Secretaria de Segurança Pública, por equipes em campo ou por relatos da população à Central Semafórica, pelo telefone 154. A ausência de monitoramento em tempo real é apontada internamente como um dos principais gargalos da operação.
Novo sistema deve agilizar o trânsito
A nova licitação prevê a substituição gradual dos controladores antigos por modelos com GPS integrado, conexão 4G e capacidade de comunicação direta com uma central de gerenciamento. O projeto inclui ainda câmeras, sensores, sistemas de alimentação de emergência, renovação completa do cabeamento subterrâneo e instalação de nobreaks em cruzamentos estratégicos.
A expectativa é que os novos equipamentos permitam identificar falhas imediatamente, emitir alertas automáticos e acionar equipes de manutenção com maior rapidez, reduzindo o tempo de interrupção dos semáforos.
Segundo o diretor-geral do Detran-DF, Marcu Bellini, a modernização representa uma mudança estrutural na forma como o trânsito é gerido no DF. Para “Brasilianas”, ele declarou: “Estamos atualizando todo o parque semafórico das vias urbanas do Distrito Federal para oferecer mais segurança, fluidez e confiabilidade à população”.
Bellini afirma que os novos controladores serão capazes de ajustar os tempos de sinalização conforme as condições reais de circulação, tornando os semáforos adaptativos e reduzindo congestionamentos. É o que se chama de “semáforos inteligentes”.
O processo de modernização do parque semafórico vem sendo acompanhada pelo Ministério Público e pelos Tribunais de Contas, que solicitaram esclarecimentos e ajustes técnicos antes da publicação do edital. O Detran-DF afirma manter diálogo contínuo com os órgãos de controle para assegurar transparência e correção no processo, que prevê a substituição integral dos equipamentos ao longo dos próximos anos.
O edital está disponível no site do DetranDF e no Portal de Compras do Governo Federal.

Semáforos do DF: cinco décadas de atraso, disputas institucionais e a lenta chegada da tecnologia inteligente
A história dos semáforos no Distrito Federal começa em 23 de outubro de 1971, quando o primeiro equipamento foi instalado em Taguatinga, após aprovação do urbanista Lúcio Costa. A partir dali, o sistema se expandiu para o Plano Piloto e outras regiões, mas sem um planejamento contínuo de atualização tecnológica.
Grande parte dos equipamentos que ainda operam hoje foi instalada nos anos 1990, período em que o DF consolidou a malha viária, mas não avançou na modernização dos controladores ou na implantação de monitoramento remoto.
Enquanto outras capitais brasileiras iniciaram a adoção de semáforos inteligentes há mais de uma década, o DF permaneceu com equipamentos analógicos, dependentes de ajustes manuais e sem capacidade de comunicação com uma central de controle.
Em Curitiba, por exemplo, os primeiros testes com tecnologia adaptativa começaram em 2014, e hoje a cidade opera com sistemas que ajustam tempos de sinalização conforme o fluxo real de veículos e pedestres. Ao longo de 2024, a capital paranaense implantou 181 novos semáforos inteligentes, incluindo dispositivos sonoros e tempos ampliados para pessoas com mobilidade reduzida.
No DF, o avanço mais concreto ocorreu fora do Detran. Em 2024, o Departamento de Estradas de Rodagem (DERDF) instalou 40 câmeras inteligentes em cruzamentos de Taguatinga e da Estrada Parque Indústria e Abastecimento, com previsão de chegar a 100 até o fim daquele ano.
Os equipamentos, adquiridos com recursos da Fonte 237, passaram a medir fluxo, velocidade, saturação e presença de pedestres, ajustando automaticamente o tempo de abertura e fechamento dos sinais. O monitoramento é feito em tempo real por uma central do DER-DF, que pode alterar tempos, desligar equipamentos ou colocálos em modo intermitente.
Enquanto isso, o Detran-DF — responsável pelo maior número de semáforos urbanos — permaneceu sem apresentar planos de modernização. Em 2021, a própria autarquia classificou como “obsoletos” os 463 semáforos sob sua gestão, muitos com mais de 25 anos de uso.
Naquele período, tentou lançar uma licitação de 12,6 milhões de reais para revitalização, mas o processo não avançou. Entre 2021 e 2024, o órgão deixou de responder a pedidos de informação sobre o tema, mesmo após questionamentos reiterados de moradores, jornalistas e parlamentares.
A falta de transparência levou a Câmara Legislativa a aprovar a lei 7.424/24, que obriga o Detran a divulgar trimestralmente valores arrecadados com multas, número de autuações e destinação dos recursos. A norma foi vetada pelo Executivo, mas o veto foi derrubado pelos distritais.
Para evitar questionamentos legais, negociações foram todas prévias
A licitação lançada agora pelo Detran-DF, estimada em 118,5 milhões de reais, marca a primeira tentativa consistente de atualizar o parque semafórico urbano em mais de duas décadas. O edital prevê substituição de controladores antigos, instalação de câmeras e sensores, renovação do cabeamento subterrâneo e implantação de monitoramento em tempo real.
A iniciativa chega após anos de atraso, disputas institucionais e ausência de informações públicas sobre o uso dos recursos arrecadados com multas.
A modernização anunciada para os próximos cinco anos encerra um ciclo de estagnação e inaugura outro, ainda incerto, em que o DF tenta recuperar o tempo perdido e aproximar sua infraestrutura semafórica dos padrões já adotados em outras capitais brasileiras.