Mostra “Passageiro”, em Yokohama, reúne 23 obras inéditas criadas durante imersão no Koganecho Artist in Residence Program
O artista brasiliense João Angelini inaugurou no sábado (11), em Yokohama, no Japão, a exposição “Passageiro”, resultado de seis meses de residência no Koganecho Artist in Residence Program — um dos mais tradicionais programas de imersão artística do país. A participação ocorreu a convite da Embaixada do Brasil em Tóquio, com apoio institucional do Instituto Guimarães Rosa e da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF, por meio do Programa Conexão Cultura.
A mostra apresenta 23 obras inéditas, desenvolvidas ao longo da convivência diária com o bairro de Koganecho, região marcada por fluxos migratórios, circulação intensa e uma história urbana complexa. É desse ambiente que Angelini extrai o conceito central da exposição: o “passageiro” como figura que atravessa territórios, culturas e sistemas de sentido. A partir dessa ideia, o artista articula deslocamento, memória e impermanência — temas que dialogam diretamente com princípios fundamentais da estética japonesa, como ma, wabi-sabi e a noção de experiência única.
Angelini trabalhou com pintura, escultura, vídeo, animação, instalação e performance, incluindo uma ação realizada na abertura da mostra. A produção combina materiais instáveis, gestos repetitivos e imagens em dissolução, criando um conjunto que evidencia tensões e aproximações entre Brasil e Japão. Elementos da cultura pop japonesa — mangás, animês, videogames — surgem como camadas formativas, atravessando memórias visuais acumuladas ao longo da trajetória do artista.
Entre as obras, destaca-se “A Linha do Desejo”, em que Angelini combina fragmentos de entulho retirados de uma casa colonial de 1830, em Planaltina (DF), com padrões inspirados em um templo budista de Kyoto. A peça estabelece uma ponte entre sistemas culturais distintos: de um lado, vestígios da história de violência e expansão territorial no Brasil; de outro, geometrias associadas à contemplação e à espiritualidade japonesa. O resultado é uma estrutura híbrida que sugere que formas culturais também são passageiras, remodeladas por deslocamentos, fricções e encontros.
A residência marcou uma mudança de escala no processo criativo do artista. “A experiência exigiu outra relação com o tempo, com o território e com a produção. É uma reorganização completa do trabalho”, afirma Angelini. A imersão também reativou investigações anteriores do artista sobre circulação de commodities, lastros materiais e dinâmicas econômicas que atravessam objetos e imagens.
“Passageiro” é a primeira exposição individual internacional de João Angelini e sua primeira residência solo no exterior, consolidando sua entrada no circuito global. Radicado em Planaltina, na periferia rural de Brasília, o artista desenvolve uma prática marcada pela experimentação entre linguagens — gravura, pintura, teatro, fotografia, vídeo, música, animação e performance — e é representado no Brasil pela Referência Galeria.