Quase R$ 1 milhão em camarote da Stock Car expõe relação entre BRB e Vicar
Decisão questiona gasto sem licitação e aponta indícios de superfaturamento
Dinheiro saiu diretamente da Secretaria de Turismo do DF para camarote de luxo
Lincoln Oliveira, presidente da Vicar, é pai do piloto Gabriel Bortoleto, patrocinado pelo BRB

O Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) suspendeu, em 11 de fevereiro de 2026, o pagamento de R$ 950 mil destinado a um camarote de luxo montado pela Secretaria de Turismo durante a etapa da Stock Car realizada em novembro de 2025, no Autódromo Internacional Nelson Piquet. O dinheiro saiu diretamente dos cofres do GDF, em contrato firmado sem licitação com a Vicar Promoções Desportivas S.A., organizadora da corrida.
O espaço, reservado para 300 convidados estratégicos e autoridades, oferecia uma experiência digna de resort cinco estrelas: R$ 55 mil em garrafas de champagne, R$ 49 mil em cenografia, R$ 55 mil em bar de drinks, R$ 180 mil para DJ e massagem rápida, além de um simulador de corrida de R$ 222 mil e R$ 23 mil em vans para deslocamento interno. Tudo isso em apenas dois dias de evento.
Enquanto os convidados desfrutavam de bebidas selecionadas e massagens, o público comum reclamava da falta de estrutura: muitos assistiram às corridas sentados no gramado, sem abrigo contra o sol e em meio à terra batida. O contraste entre luxo e precariedade reforçou as críticas sobre o gasto público.
O relatório técnico da própria Subsecretaria de Promoção e Marketing da Secretaria de Turismo já havia alertado para riscos: falta de clareza sobre o interesse público, justificativas frágeis de preço e possibilidade de veto dos órgãos de controle. Mesmo assim, o contrato foi fechado.
Os Bortoleto, novamente em cena
A decisão do TCDF expõe não apenas a fragilidade da contratação, mas também a teia de relações que envolve o BRB e a Vicar. A reinauguração do autódromo, em novembro de 2025, contou com apoio direto do banco para adequações técnicas e homologação da pista. O presidente da Vicar, Lincoln Oliveira, celebrou a parceria e destacou o papel do BRB na viabilização do retorno da capital ao calendário nacional.
O detalhe que chama atenção é que Lincoln Oliveira é pai do piloto Gabriel Bortoleto, que recebeu R$ 8,37 milhões em patrocínios do BRB em 2025. Ou seja, enquanto o GDF bancava diretamente um camarote de luxo para autoridades e convidados, o banco público investia simultaneamente em contratos milionários com a empresa dirigida pelo pai e no patrocínio ao filho.
O episódio soma-se ao contexto de crise enfrentado pelo BRB, que tenta reconstruir sua imagem após o rombo bilionário com o Banco Master. A nova gestão promete foco regional e cortes drásticos nos patrocínios, mas casos como o camarote da Stock Car mostram como o modelo anterior privilegiava glamour e visibilidade nacional em detrimento da missão de banco público de desenvolvimento do Distrito Federal.