Entrega ficará a cargo de Celina Leão, após saída de Ibaneis Rocha para disputar eleições
Investimento de mais de R$ 300 milhões exige obras de infraestrutura e adaptações na rede elétrica
Frota atenderá 22 linhas do Plano Piloto e poderá transportar 60 mil passageiros por dia
Neoenergia terá de reforçar subestação para evitar apagão durante recarga dos veículos
EXCLUSIVO – Promessa do governador Ibaneis Rocha (MDB) feita em janeiro de 2025, os 90 ônibus elétricos que irão compor o sistema de transporte público do DF só agora começaram a ser embarcados nesta semana, diretamente do porto de Qingdao, na China, e devem desembarcar no Porto de Santos em abril.
O processo de desembaraço aduaneiro pode levar de 30 a 45 dias. Depois disso, cada veículo será transportado individualmente em carretas até Brasília, já que não podem vir rodando. A expectativa é que os primeiros cheguem em maio e estejam aptos a operar a partir de junho. Um ano após o prazo prometido pelo governador.
O secretário de Transporte e Mobilidade, em entrevista exclusiva à “Brasilianas”, resumiu o espírito da empreitada: “É um projeto bastante complexo, mas está caminhando bem.” A fala traduz a dimensão dos desafios enfrentados, que vão desde a importação internacional até a adaptação da infraestrutura elétrica local.
O projeto, conduzido pela empresa Piracicabana (uma das cinco grandes operadoras do transporte no DF) em parceria com a fabricante chinesa CRRC, envolve um investimento superior a 300 milhões de reais, com cada ônibus custando em média 3,4 milhões de reais — cinco vezes mais caro que um modelo convencional a diesel. Além da aquisição, há gastos adicionais com infraestrutura de recarga, estimados em mais de 30 milhões de reais.

Energia suficiente para abastecer 2,5 mil casas por dia
Dois pontos de abastecimento estão previstos: um próximo à garagem da TCB e outro, mais robusto, junto ao Terminal Asa Sul, nas proximidades da Hípica. Esse segundo ponto, que funcionará também como garagem e receberá equipamentos de última geração, já recebeu aprovação da Neoenergia – que por sua vez terá de adaptar sua própria subestação, instalando transformadores especiais para suportar a carga requerida. As obras devem começar em breve.
O desafio energético é central. Um ônibus elétrico urbano consome, em média, entre 1,2 e 1,5 kWh por quilômetro rodado. Considerando uma operação diária de 200 km por veículo, cada ônibus demandaria cerca de 240 a 300 kWh por dia. Multiplicando pelos 90 veículos, o consumo diário pode ultrapassar 27 mil kWh — equivalente ao consumo de aproximadamente 2.500 residências médias em Brasília. Se todos fossem carregados simultaneamente, haveria risco de sobrecarga capaz de provocar apagão no Plano Piloto. Por isso, a recarga deverá ser escalonada e cuidadosamente planejada.
Do ponto de vista operacional, os novos veículos atenderão 22 linhas, preferencialmente aquelas que servem o Plano Piloto. A escolha reforça o caráter simbólico da iniciativa: levar inovação e sustentabilidade ao coração da capital. Estima-se que a frota possa transportar cerca de 60 mil passageiros por dia, oferecendo viagens mais silenciosas, confortáveis e ambientalmente responsáveis.
Promessa de Ibaneis, entrega para Celina
Mas o projeto não é apenas técnico: ele carrega forte simbolismo político. A entrega dos ônibus foi uma promessa de Ibaneis Rocha, feita um ano atrás. Inicialmente, ele havia prometido a chegada do primeiro veículo para testes em novembro do ano passado. Depois, adiou para janeiro deste ano.
Agora, o novo cronograma prevê que os ônibus só cheguem ao DF em maio. Como Ibaneis terá de se desincompatibilizar do cargo até o início de abril para concorrer às eleições, não será ele quem fará a entrega. Caberá à vice-governadora Celina Leão (PP), que assumirá o GDF, conduzir a cerimônia e capitalizar politicamente o evento.
Essa mudança de protagonismo adiciona uma camada política ao projeto. A chegada da frota elétrica, além de ser um marco tecnológico e ambiental, se tornará também um ato simbólico de gestão e continuidade administrativa. Celina Leão terá a oportunidade de apresentar-se como responsável pela concretização de uma promessa que, embora feita por Ibaneis, só se materializará em sua gestão.
