A restauração da primeira sede na Candangolândia contrasta com a autorização para vender o coração operacional da companhia
A crise do BRB empurra para o mercado um dos patrimônios mais simbólicos da capital
Na mesma semana em que o Governo do Distrito Federal celebrou a restauração da primeira sede da Novacap, na Candangolândia, foi também a semana em que a Câmara Legislativa autorizou o Executivo a vender a sede atual da companhia, que funciona no mesmo local há 66 anos, para reforçar o patrimônio do BRB.
O paradoxo é evidente. De um lado, o GDF recupera e homenageia o berço institucional da estatal que construiu Brasília. De outro, coloca à venda o espaço que, desde o fim dos anos 1950, dá continuidade à missão de conservar, construir e transformar o Distrito Federal.
A operação pode até ser justificada pela urgência financeira do BRB, mas abre um debate sobre os limites do uso de bens públicos estratégicos para resolver crises conjunturais.
Criada em 19 de setembro de 1956 por Juscelino Kubitschek, a Novacap nasceu como o cérebro operacional da construção da nova capital. Sua primeira sede, erguida ainda em 1956 na Candangolândia, funcionou como centro de comando das obras entre 1956 e 1959. Foi ali que o engenheiro Israel Pinheiro, então presidente da companhia, coordenou parte decisiva do esforço que transformou o projeto de Brasília em cidade.
Antiga sede, agora é escola do Senac
O prédio, que depois abrigou a Administração Regional da Candangolândia, acaba de ser restaurado e, semana passada, foi reinaugurado como Polo de Educação Profissional Israel Pinheiro, com cursos técnicos do Senac e um Centro de Memória dedicado à construção da capital. A cerimônia teve forte carga simbólica, reforçada pela emoção da neta de Israel Pinheiro ao revisitar o espaço onde seu avô ajudou a erguer Brasília “no meio do nada”.
Enquanto o governo celebrava esse resgate histórico, a sede atual da Novacap — ocupada desde o fim dos anos 1950 — era incluída no pacote de imóveis do projeto de lei destinado a reforçar o caixa do BRB, que foi aprovado por deputados governistas na Câmara Legislativa do DF – e que deve se tornar lei hoje.
Localizada no Setor de Áreas Públicas (SAP), próxima ao ParkShopping, a área de 405.698 m² abriga hoje 1.453 empregados e concentra toda a estrutura operacional da companhia: oficinas, almoxarifados, laboratórios, áreas técnicas, pátios de equipamentos e o prédio administrativo central. É desse conjunto que saem, há quase sete décadas, as equipes responsáveis por obras viárias, pavimentação, drenagem, urbanização, manutenção de parques e jardins e intervenções estruturantes do Distrito Federal.

Sede atual tem 66 anos
A sede atual também carrega marcas da própria evolução institucional da Novacap. O prédio principal foi moldado por gerações de técnicos e arquitetos, entre eles Luiz Henrique Freire Duarte, o mais antigo arquiteto da casa e ex-presidente da estatal, cuja atuação ajudou a consolidar a identidade técnica da companhia. O espaço, portanto, não é apenas um ativo imobiliário: é um repositório vivo da memória administrativa e operacional de Brasília.
O contraste entre restaurar o passado e negociar o presente revela uma contradição que merece atenção. A recuperação da antiga sede, convertida em escola técnica e centro de memória, aponta para um futuro que valoriza história e formação profissional. A possível alienação da sede atual, porém, projeta incerteza sobre o espaço que sustenta o cotidiano da cidade — um espaço que não apenas testemunhou, mas viabilizou a construção e a manutenção de Brasília desde 1960.
Entre celebrar a origem e abrir mão de um de seus pilares, o governo parece ter escolhido fazer as duas coisas ao mesmo tempo. E é justamente essa simultaneidade que ilumina o debate sobre o patrimônio público de Brasília: o que preservar, o que negociar — e a que custo.