O jogo de apostas faz parte da realidade brasileira, mas, nos últimos anos, a explosão de casas de apostas ampliou o problema a uma escala inédita. O desenvolvimento tecnológico intensificou e aperfeiçoou a oferta de jogos, especialmente os online e transformou o que antes era uma prática pontual em um grave problema social.
No Brasil, as chamadas bets movimentam valores vultosos: a receita bruta do setor é estimada em R$ 37 bilhões em 2025. No primeiro semestre do ano passado, o faturamento das empresas autorizadas chegou a R$ 17,4 bilhões, colocando o país entre os cinco maiores mercados de apostas do mundo. Diante desse cenário alarmante, a Secretaria da Família do Distrito Federal encomendou uma pesquisa para compreender o perfil dos apostadores e os impactos dos jogos de azar na capital.
O estudo “Apostadores no DF: diagnóstico comportamental e sociodemográfico”, lançado pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF) em parceria com a Secretaria da Família do DF, analisa os efeitos dos jogos de azar sobre a população do DF, as modalidades mais praticadas e os principais motivos que levam as pessoas a apostar.
Os dados foram coletados por meio de questionários e 1.827 pessoas foram entrevistadas em todas as regiões administrativas do Distrito Federal. Sendo 52,4% dos do sexo feminino e 47,6%, do sexo masculino. Na pesquisa foram incluídos jogos de cassinos e caça-níqueis como o jogo do tigrinho, bingo, raspadinhas, jogo do bicho, apostas esportivas (bets) on-line e loterias federais e estaduais.
O levantamento revelou que a prática da aposta é mais comum entre homens (61,9%) e quanto mais digital e disponível a modalidade, maior a intensidade do uso. Loterias atraem usuários ocasionais, bets aumentam a recorrência semanal e cassinos online concentram os perfis mais frequentes. No Distrito Federal, o número de pessoas que fizeram algum tipo de aposta nos últimos 12 meses é de mais de um terço da população (35%).
A loteria é a modalidade mais popular (26,6%), seguida das apostas esportivas (8,4%) e o bingo (8%). Jogos de cassino online aparecem com 6,5%, enquanto o jogo do bicho é o menos frequente, com 4,8% dos entrevistados. Foram considerados apostadores aqueles que realizaram apostas de qualquer valor em qualquer uma das modalidades investigadas nos 12 meses anteriores à pesquisa.
Renda dos apostadores
A pesquisa mostra que a faixa etária de 30 a 49 anos representa a maioria dos apostadores (43,3%), indivíduos de 18 a 29 anos representam 20,8% dos apostadores. Enquanto pessoas com 60 anos ou mais representam o menor percentual (16,7%). A maior parte dos apostadores identificados na pesquisa pertence ao grupo de renda média-baixa, que concentra 32,5% do total.
Em seguida, aparece o grupo de renda baixa, com 28,4%. Já os menores percentuais estão nas faixas de renda média alta (20,5%) e alta (19,7%), o que pode indicar que a participação em apostas é mais comum nas camadas de menor renda. O levantamento mostra que os apostadores estão principalmente entre os empregados do setor privado (38,3%) e entre os autônomos (22,5%). Ainda de acordo com a pesquisa, apenas 5,8% dos apostadores receberam algum tipo de benefício.
Só perdem
A Diretora de Políticas Sociais (Dipos) do IPEDF, Marcela Machado, explica que o que mais chama atenção é que dentre as pessoas que apostam, 47% não obtêm ganhos financeiros, no entanto continuam jogando mesmo sem conseguir retorno.
“O que é mais relevante é a renda, a pessoa que está ali entre renda média e baixa justamente porque busca esse ganho financeiro que não advém do trabalho ou rendimento pessoais e tem essa esperança de obter um ganho financeiro extra jogando, mas os próprios dados mostram que 47% dessas pessoas não ganharam nada. Então, as pessoas vão retroalimentando o ciclo da perda. São dados que chamam a atenção.”
Entre os apostadores que já obtiveram ganhos, 27% disseram usar o valor para realizar novas apostas e 16,3% para pagar contas de casa ou aluguel. Outros 11,3% utilizam para quitar dívidas em atraso.
Modalidades jogadas
O levantamento do Instituto revelou que o jogo do bicho é mais concentrado entre pessoas com 60 anos ou mais (30,7%) e 50 a 59 anos (20,5%) com redução acentuada entre jovens. Nos cassinos online, a maioria dos apostadores é jovem: 51,7% têm entre 30 e 49 anos e 38,1% estão na faixa de 18 a 29 anos, com pouca participação de pessoas acima dos 50 anos.
As apostas esportivas seguem um padrão parecido, com 48,4% entre 30 e 49 anos e 42,5% entre 18 e 29 anos, o que confirma a maior adesão dos mais jovens.
O posicionamento dos apostadores do Distrito Federal em relação à regulamentação das apostas mostra opiniões divididas. Para o jogo do tigrinho e outros jogos de cassino, 50,1% dos entrevistados se declararam a favor da regulamentação, enquanto 49,9% se posicionaram contra.
Resultado semelhante foi observado no caso das apostas esportivas (bets). Entre os respondentes, 51,2% afirmaram ser favoráveis à regulamentação e 48,8% contrários.
Políticas Públicas
De acordo com o levantamento, entre as motivações relatadas para apostar, o ganho financeiro foi o principal fator mencionado, citado por 85,5% dos entrevistados.
Em proporção menor, 11,1% afirmaram apostar por prazer ou diversão e 7,3% para socializar com familiares ou amigos. O secretário da Família, Rodrigo Delmasso, reforça que os jogos de azar geram impactos reais como endividamento, conflitos familiares e adoecimento emocional.
“O estudo inédito nos permite compreender quem são os apostadores no DF, onde estão e como esse comportamento afeta a dinâmica familiar. Com dados técnicos, o GDF poderá formular políticas públicas preventivas, voltadas à educação financeira, à saúde mental e ao fortalecimento das famílias, protegendo especialmente os mais vulneráveis.”