Goiás critica reajuste e responsabiliza União por impedir participação no modelo
DF defende gestão conjunta para reduzir tarifas e reorganizar o sistema
Sem subsídios, transporte do Entorno continua entre os mais caros do país
O novo reajuste das tarifas dos ônibus do Entorno do Distrito Federal, autorizado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), reacendeu o debate sobre a criação de um consórcio interfederativo para gerir o transporte na região.
O aumento de 2,546%, que entra em vigor nos próximos dias, pressiona o orçamento dos trabalhadores e recoloca no centro da agenda um compromisso assumido pelos governadores Ibaneis Rocha (DF) e Ronaldo Caiado (GO).
A discussão ganha peso adicional porque ambos os governadores deixarão seus cargos nos próximos dias para disputar novas posições políticas nas eleições deste ano, o que pode alterar o ritmo das negociações e a condução do tema pelos próximos governos.
Consórcio: promessa conjunta que não avançou
O consórcio DF–Goiás–União foi anunciado como solução estrutural para o transporte do Entorno, com a proposta de criar uma autoridade compartilhada capaz de subsidiar tarifas, reorganizar linhas, padronizar bilhetagem e melhorar a fiscalização. O modelo seguiria experiências já adotadas em regiões metropolitanas como Goiânia.
A iniciativa, porém, esbarrou na própria União. A ANTT barrou a participação federal no consórcio, apesar de o transporte semiurbano interestadual ser de competência da União. Sem o governo federal, o arranjo perde sustentação jurídica e financeira, já que DF e Goiás não podem assumir sozinhos custos e passivos de um sistema que não controlam integralmente.
Posições dos governos
O Governo do Distrito Federal defende que o consórcio é essencial para reduzir tarifas e melhorar o serviço, argumentando que o atual modelo regulado exclusivamente pela ANTT limita a capacidade de intervenção dos estados.
Já o Governo de Goiás divulgou nota oficial criticando o reajuste e responsabilizando a União pelo impasse. Segundo o texto, Goiás é “contrário a qualquer reajuste” e afirma que, embora DF e Goiás atuem juntos, “não têm encontrado respaldo da União”. O governo goiano sustenta que a decisão da ANTT “obriga Goiás e o DF a assumirem sozinhos custos e responsabilidades, inclusive passivos”, o que “rompe o equilíbrio federativo”.
Goiás defende um consórcio com “participação federativa equilibrada, capaz de subsidiar tarifas e promover melhorias no sistema”, nos moldes do que já ocorre na Região Metropolitana de Goiânia. O estado afirma que sua prioridade é “proteger o usuário, garantir transporte digno e construir uma solução sustentável, sem transferir custos indevidos à população”.
Impacto direto no usuário
Com o novo reajuste, algumas tarifas ultrapassam R$ 12 por viagem, e o gasto mensal de trabalhadores que se deslocam diariamente para Brasília pode superar R$ 400. Sem subsídios e com aumentos anuais, o transporte do Entorno segue entre os mais caros do país em relação à renda média da população.
O tema permanece em discussão, mas a transição de governo no DF e em Goiás tende a adiar decisões estruturais — enquanto o sistema continua pressionando quem depende dele todos os dias.