Por Isabel Dourado
Fé, festa e ancestralidade marcaram esta segunda-feira (2), data em que diversos estados brasileiros celebram a tradicional festa de Iemanjá. Em Brasília, a devoção à Rainha do Mar tomou conta da Praça dos Orixás, na Prainha, que recebeu a 7ª edição da Festa das Águas, reunindo centenas de fiéis, lideranças religiosas, babalorixás e admiradores da cultura de matriz africana em um momento de devoção coletiva, com cânticos, banhos de cheiro, oferendas, ritos e muita fé. Orixá das águas, Iemanjá é associada à maternidade, à proteção e ao equilíbrio espiritual.
Stéffanie Oliveira, presidente do Instituto Rosa dos Ventos, responsável por organizar a celebração anual da Prainha, explica que a festa respira brasilidade e reforça o símbolo de cuidado, força e proteção do orixá. Segundo ela, a celebração das águas tem um significado que vai mais além do que uma festa religiosa sagrada. “O Brasil inteiro está festejando as águas. As águas para além do nosso sagrado é vital, água é colo, é afeto. Quem nunca entrou no mar para receber o colo e o carinho de Iemanjá? Quem nunca foi em uma cachoeira para receber os carinhos de Oxum?”, destaca.
Steffanie também lembra que a festa é um momento de renovação para os devotos e reforça a força feminina já que homenageia duas orixás mulheres. “Festejar as águas é extremamente emocionante. A gente percebe que é uma festa cheia de emoção. Tem toda uma coisa de se reconstruir, de se descarregar para começar um novo ano. Sobretudo para festejar a força feminina. Pois são duas orixás femininas, Iemanjá e Oxum.”
Revitalização do espaço
O presidente do Instituto Ojuinã, babalorixá Veber Brasil, afirma que a revitalização da praça e a conclusão das estátuas representam a imposição do respeito que as religiões de matriz africana precisam. “É o domínio da nossa cultura no espaço público, e isso é de extrema importância. O pedido de revitalização existe há muitos anos. Nossas estátuas foram queimadas, quebradas, destruídas. O objetivo é transformar a Praça dos Orixás em um lugar que represente a nossa cultura afro-brasileira”, destaca.
Intolerância
Apesar de ser um país plural, o Brasil registrou, entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, 2.774 denúncias de intolerância religiosa por meio do Disque 100, canal do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Entre as religiões identificadas, as tradições de matriz africana concentram os maiores números de denúncias. A Umbanda reúne 228 registros, seguida pelo Candomblé (161).
Adna Santos, a Yalorixá Mãe Baiana de Oyá e coordenadora do Coletivo das Yás, afirma que a Praça é um espaço de resistência para os devotos de religiões de matriz africana e de combate ao racismo religioso. “Acreditamos nos orixás que estão presentes aqui, e nossos governantes precisam entender que, se não lutarmos para ocupar este espaço, nós simplesmente não existimos.”