Por Isabel Dourado
A história das tranças de cabelo atravessa séculos. Mais do que um penteado, elas são símbolo de resistência, ancestralidade e identidade cultural. Uma identidade que tentou ser apagada quando povos africanos foram arrancados de suas terras e trazidos à força para o Brasil durante o período de escravidão. As tranças carregam memórias e significados diversos. Em meio à violência e à opressão, o povo negro construiu formas sutis mas extremamente poderosas de resistência e mantiveram viva uma tradição que atravessa tradições.
Com o objetivo de resgatar e valorizar saberes ancestrais, o Instituto Ojuinã, organização religiosa e sem fins lucrativos do Distrito Federal, por meio do projeto Territórios Afrocandangos, promove uma oficina de elaboração de tranças. As aulas gratuitas acontecem no terreiro Ilè Asè Ojuinà localizado no Núcleo Rural Nova Betânia, no Jardim Botânico, e são ministradas pela trancista brasiliense Gabriela Dias. O presidente do Instituto, babalorixá Veber Brasil, destaca que a oficina de tranças nagô vai muito além da formação de uma nova profissão.
Segundo ele, a iniciativa está centrada no reconhecimento das tradições, da ancestralidade e dos saberes afro-brasileiros, contribuindo para o enfrentamento à intolerância religiosa e para o fortalecimento da autoestima. “O reconhecimento das nossas tradições é o mais importante desse projeto. O resgate dessa cultura, o aprendizado ancestral é muito característico na oficina de tranças. Há menos de sete meses tivemos o reconhecimento de um trabalho que é desenvolvido desde que chegamos no Brasil”.
Idealizado a partir do terreiro de Candomblé Ilê Asé Ojuinã Sorokê Efon, fundado a mais de duas décadas, o Instituto Ojuinã promove diversos projetos de cunho cultural, social e ambiental, buscando manter vivo as práticas e valores das religiões de matriz africana no Brasil. A trancista Gabriela Dias, 23 anos, que está ministrando o curso, conta que começou a fazer tranças na irmã mais nova para ela ir à escola, mas não imaginava que se tornaria trancista. Aos 18 anos, depois de terminar os estudos, ela conta que conheceu um salão no Novo Gama (GO) e foi contratada para cuidar das tranças.
“Me especializei, fui me desenvolvendo e comecei a trabalhar com o que eu gostava e receber por isso, porque antes eu só fazia na minha irmã. Eu sou iniciada no Candomblé e dentro da minha religião (candomblé) eu fazia tranças nos meus irmãos de santo, ali fui vendo que as tranças tem uma história ancestral, vai muito além da estética”, explica.
Segundo ela, o trabalho como trancista possibilitou alcançar a liberdade financeira. “Quero levar esse conhecimento para outras pessoas também, porque através do meu trabalho conquistei minha casa, meus móveis, consigo morar sozinha. Passei isso para minha irmã, então deu super certo.” Ela conta que as aulas têm sido uma experiência sensacional e já conta com mais de 20 alunos.”As alunas tiram dúvidas, está todo mundo participando bastante das aulas.”
Em julho do ano passado, a profissão de trancista passou a ser oficialmente reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego, com inclusão na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO).